Me obrigando a escrever, antes que eu esqueça

maio 16, 2020

Aprender outros idiomas é algo que primeiramente se apresentou na minha vida como uma necessidade. Parte da família do meu pai é castelhana, e apesar de arranharem um português estranhíssimo, eram orgulhosos e nacionalistas demais e preferiram deixar claro que se quiséssemos nos comunicar frequentemente, eu teria que aprender o castelhano. Pro desgosto de todos eles, minha professora de Espanhol era Uruguaia, e eu jamais usei um vosotros sequer durante nossas conversas, and I think it's beautiful.

De um jeito torto, meu interesse por línguas estrangeiras saiu daí, da individualidade e orgulho dos parentes que moravam do outro lado do Rio Uruguai, e eu lembro ter cinco ou seis anos quando comecei a aprender minhas primeiras palavras do Inglês. Eu tinha pouquíssima exposição à língua, ninguém na minha família aparentava interesse ou tinha conhecimento suficiente pra me ajudar, e foi aí que lá pelos doze anos de idade eu descobri as maravilhas do autodidatismo.

Aos quinze, eu já era fluente em espanhol (obrigada, RBD) e consumia uma quantidade enorme de conteúdo em inglês quase que diariamente, porque estudar línguas estrangeiras era algo que de fato me trazia uma satisfação enorme. Mas apesar do meu vocabulário na língua inglesa sempre ter sido muito vasto, eu tinha pouquíssima noção de conversação e pronúncia, e foi pra melhorar esse aspecto que resolvi me jogar numa loucura de morar nos Estados Unidos por uns tempos depois da faculdade. 

O que era pra ser temporário já são hoje quatro anos, e ao que tudo indica muitos mais virão. A grande questão é que agora o jogo virou, e eu passo boa parte dos meus dias lendo em inglês, escrevendo em inglês, estudando, me expressando e consumindo cultura em inglês, e o português cada vez mais deixado de lado, coitado. O primeiro sinal de que eu estava negligenciando minha língua materna veio em forma de uma conversa com outra amiga brasileira, em que eu não conseguia lembrar a palavra cabeceira em português, e que hoje em dia é piada jogada na roda toda vez que uma das duas não consegue lembrar como dizer algo na língua em que ambas nasceram e foram criadas.

Foi engraçado, rimos muito e etc, mas dali em diante comecei a prestar cada vez mais atenção em com que frequência eu falhava em traduzir algo do inglês pro português quando conversava com minha família e amigos. Também comecei a perceber que tinha dificuldade em traduzir emoções e me comunicar com clareza e objetividade na minha língua nativa, e que me sentia muito mais apta e desenvolta quando optava pelo inglês na hora de me expressar. Esquecia termos e expressões com muita facilidade, tinha dificuldade até mesmo em fazer traduções literais, dado o desuso do português no meu dia-a-dia.

Foi meio desconcertante perceber o quanto eu tinha negligenciado algo que sempre foi e será parte essencial de quem sou, da minha construção como pessoa no mundo, de um pedaço imenso da minha cultura e história, que pretendo passar adiante e ensinar pros meus filhos futuramente. Como é que posso ensinar algo que eu mesma ando esquecendo?

Muita gente pode achar que é bobagem, mas essa coisa toda de ter perdido a eloquência no idioma que sempre fui capaz de dominar foi algo que não somente me pegou de surpresa, mas que também me fez sentir vergonha. Foram várias as situações em que tentei produzir, escrever, resenhar e formular opiniões usando o português e desisti porque acabei frustrada com minha inabilidade de ser concisa e objetiva. Me senti pequena, estúpida, e tudo que colocava no papel, que não fosse escrito em inglês, soava como uma sopa de palavras que mal faziam sentido juntas.

E quatro anos são suficientes pra essa situação tomar forma, vocês me perguntam? A resposta é que no meu caso sim, mas não significa que aconteça com todo mundo, que todo brasileiro que vive fora do Brasil seja desleixado como eu e se desligue quase que completamente do idioma como eu acabei fazendo. A princípio o foco no inglês fazia sentido, afinal era pra isso que eu tinha cruzado o continente americano inteiro. Mas quando a situação se tornou permanente e os Estados Unidos minha nova casa, eu devia ter percebido que como 1 + 1 são 2, falar com os amigos e a família ocasionalmente e ler legendas no Instagram em português dez minutos por dia não fariam a mínima diferença.

Eis aqui o resultado desse dramalhão todo: um blog. Eu poderia muito bem tuitar o dia inteiro em português e esperar um milagre, ou torrar a paciência da minha mãe com ligações diárias, mas resolvi me obrigar a vomitar um texto inteiro de vez em quando, do começo ao fim, que faça sentido e me traga um pouquinho de paz de espírito. Poderia também ter começado um diário em português e me comprometido a escrever diariamente, mas a verdade é que eu não tenho força de vontade ou disciplina suficientes, e preciso que o mundo e a vergonha de falhar publicamente sejam a motivação que me faltava.

Notas aleatórias:
1) Numa tentativa de consumir literatura em português, descobri que a Cultura entrega internacionalmente. Se existe uma situação em que comemoro o dólar a seis pila, essa é uma delas.
2) Número de vezes em que precisei do Google Tradutor enquanto escrevia esse texto: aproximadamente seis. Triste, eu sei.

2 comentários

  1. Amiga,

    Bem-vinda de volta! Feliz que viemos juntas.

    Tu sabe que eu percebo muito essa coisa do idioma também, ainda que esteja em Portugal. Mesmo trabalhando em inglês e me comunicando em inglês grande parte do meu dia, o que por vezes me leva também à doideira do "isso aqui, como se diz?", as mudanças no jeito de falar o português também são visíveis: volta e meia me vejo escrevendo "estou a fazer" etc. Mas tenho perfeita noção que o meu caso é um pouco mais confortável que o seu. Também desenvolvi um amor muito grande por essa língua, que, agora percebo, é uma das mais bonitas do mundo. O português em si, mas em especial o brasileiro, cantado, arrastado, com umas palavras que só no Brasil fazem sentido. É curioso como a gente muda de país e muda tudo dentro da gente também.

    Eu adoro quando tu esquece as palavras, dou boas risadas. Feliz, estou aqui pra te fazer praticar o bom português em áudios arrastados e ligações longas, trocar figurinhas de livros e, também, por óbvio, ler o que tu tens a dizer (oh pá!).

    Um beijo.

    ResponderExcluir
  2. Amiga!
    Isso é muito natural! Tão natural quanto a luz do dia, já dizia Chorão.
    Não precisa te sentir desleixada ou com vergonha.
    Se te sente bem voltar a ter mais o português na tua vida, ótimo! Eu vou adorar te ler.

    Aqui não acontece isso comigo porque infelizmente não tenho tanta exposição ao inglês quanto gostaria (saio pouquíssimo e só tenho amigos brasileiros), mas também já aconteceu de esquecer palavras básicas. Bate um desespero, né? hahaha

    Beijo!

    ResponderExcluir